nicole venturini

Fim de festa












Os adornos, a beleza



Na festa em que contrata-se buffet, segundo os experts, deve-se saber exatamente qual é a atmosfera a ser criada enquanto o coquetel está sendo servido. O DJ deve colocar músicas gostosas, como por exemplo: Love is in the air e Copacabana.¹ A mesa dos doces permanece intocável, à espera. Na pista de dança, as plumas devem ser entregues quando começarem as músicas gays.

Em todas as festas de ano novo, perto ou longe do mar, a família fazia questão de criar, em suas manifestações mais singelas, a simulação de um paraíso tropical. Em qualquer arbusto ou conjunto de folhas, a lembrança de um coqueiro. Sobre a toalha branca da mesa repousavam frutas em cortes ornamentais, sempre com um bolo de aniversário do lado, porque minha irmã nasceu no primeiro dia do ano.

Naqueles anos, nenhum bolo passaria longe de ousadas coberturas de glacê, que cumprem uma função primordial – deixar repousar um brilho sobre a superfície das coisas. Nesse universo, a cultura é a cobertura: um tule gracioso sobre a morte.

Longe de passividade, as imagens dos livros de receitas, incansavelmente compuseram o gosto da família. Os mais profundos sentimentos foram condimentados por sal e açúcar. As imagens disparam uma sensação de ambiguidade: não sei se é de bom gosto ou mau gosto, mas há um gosto.

Há um gosto todo especial em fazer preparar um pudim ou um bolo por uma receita velha de avó. Sentir que o doce cujo sabor alegra o menino ou a moça de hoje já alegrou o paladar da dindinha morta que apenas se conhece de algum retrato pálido mas que foi também menina,
moça e alegre.²

Imagens produzidas pelas mãos da família surgem nos álbuns e tecem uma malha no tempo, cujas linhas vão ligando gerações de pessoas. As flores sempre estão presentes nos ritos de passagem. São testemunhas de presença ambígua: são mais valiosas na medida em que parecem ter mais vida. E, por isso, trazem consigo o mistério: tudo o que é vivo, morre. Mas, a angústia da morte sofre um desvio. Através do kitsch³, materializa-se o desejo de viver uma vida apaixonada, é um exagero diante de uma vida que não pode ser pálida.

O principal sentido do kitsch é o medo, medo da morte, recusa à morte feita pelas donas de casa que amontoam, como um fantasma, para não ter que enfrentá-lo, dilúvio das pequenas ternuras familiares, a hipocrisia das redinhas e dos coelhinhos pascais, das cortinas bordadas e dos enfeites, e lembranças de todos os tipos.⁴

Cobrimos de fantasia as coisas mais variadas, interferindo o tempo todo na profundidade das coisas. Quando olho para a superfície das fotografias e dos vídeos, percebo que elas estão vulneráveis, dispostas a transformarem-se. Passo a olhar para elas não mais como algo a serviço da nostalgia anestesiante. Se a docilidade, o brilho e a leveza, em nossa cultura, passaram a ser os códigos universais da infância, podem os registros, pelas mãos da família, guardar segredos que contradizem esse código?























O silêncio, a vela apagada



Na hora dos parabéns, com a luz apagada, a iluminação baixa da vela surge no rosto dos convidados. A câmera aponta para a cena e os rastros do glitter da decoração de isopor se anunciam. Pontos brilhantes apagam e acendem sutilmente em um ambiente noturno fantasioso. Por mais que a festa tenha chegado ao seu ápice, acontece uma dobra no tempo: tudo ficou estranho, tomado por uma vertigem.

A fumaça sutil e o cheiro da vela apagada transpassam a festa. O além-mundo surge como uma oscilação na linha que delimita as coisas. A fumaça é um espaço entre, um espectro fantasmagórico. Faz os aniversários se confundirem com os velórios. Por ser, inevitavelmente, sobre vida e morte, joga no meu corpo infantil esse eterno paradoxo, mesmo que eu não esteja preparada para tal complexidade.

Desenhando um contorno entre as coisas, o deus bíblico impôs limite ao mistério – “a terra era sem forma e vazia, havia trevas sobre a face do abismo. Deus disse: haja luz e houve luz. Viu que era boa a luz e fez separação entre a luz e as trevas. Deus chamou à luz dia e às trevas chamou noite.”⁵ O ar da noite me fala sobre a passagem humana pela terra - essa odisséia -, que dá sinais do enorme desconforto engendrado pelo que é sem forma e vazio.
Os sonhos exigem trazer o que há de mais profundo à superfície, para que seja visto, apalpado. Dá forma para as coisas misteriosas. Gregor Samsa, personagem da obra literária de Franz Kafka⁶, me provoca: as transformações de um corpo nos impedem de repousar. Vida e morte se friccionam durante as metamorfoses.

Como tudo o que é monstruoso, o silêncio noturno pode ser gatilho para pesadelos, ou para grandes revelações. Então, quando G.H.⁷ conta sobre o que há entre o número um e o número dois, uma linha de mistério e fogo, entendo por que o silêncio é a respiração contínua do mundo. A festa caminha para o seu fim e é o apagamento silencioso da vela que o anuncia.























fim de festa

Morre a sereia



Com a filmadora, no escuro do ginásio, ela procura por mim. De longe, atravessa as sereias, corre o olhar da câmera, aproxima o zoom. Está tentando registrar a apresentação da sua priminha mais nova. Enquanto as meninas brilham no escuro, ela discute com a minha mãe – como sempre – e acaba me perdendo de vista.

O efeito dos espelhinhos que as meninas apontam para cima tornam o ambiente sedutor, parece uma pista de dança. O apresentador diz que as meninas representam o elemento água. No mar, cuja concha brilhante oculta uma pérola, há de surgir uma vênus que, diante das menininhas, dança perfeitamente ereta e imponente, fazendo acrobacias com uma bola. De longe, as lantejoulas azuis imitam a pele das sardinhas, que dançam juntas, antes de acabar dentro da lata.
Naquela noite, vestida de sereia, olhei no espelho e vi um crustáceo. Percebo um ser que posso vir a ser: salgado, escroto, gosmento, cascudo, com pêlos e antenas. Tenho um interior insosso, mas junto com alcaparras, maionese e sal, minha carne é comestível e forma um arranjo bonito, apesar da presença ambígua da minha carcaça monstruosa. O sal simula um mergulho, e enquanto simulação, fica só na superfície, como uma “transcendência que se usa para poder sentir um gosto, e poder fugir do que chamamos de nada.”⁸  

Às vezes a criança está no prato como uma lagosta – fetiche da classe média – em volta das alfaces que imitam as algas de um habitat marítimo. Por outro lado, as transformações do corpo de uma menina podem trazer densidade para sua existência, como se, em um mergulho, ela pudesse afundar e virar um ser abissal.






















































Fim de festa



Era noite de inverno e eu estava na antiga lanchonete do clube, em ocasião de uma festa. Dessa vez, naquele espaço tão familiar, eu andava com um corpo estranho, maior. Anos antes, eu era criança, ocupando-o nos dias solares e quentes. O salão era imenso, mas sem as mesas, cadeiras, freezers e mesas de jogos, que ocupavam, antes, o espaço, aquilo era absurdamente gigante. As luzes, improvisadas, não davam conta de iluminar o salão.

O vazio, no escuro, era uma presença soberana e esmagadora. Lá fora, permaneciam as piscinas, de diferentes formatos. Quietas, como superfícies de vidro em um deserto. O tobogã e sua escada infinita eram muito menores do que eu lembrava.

Dentro da festa, vou até a sacada e vejo uma área de árvores enormes que culminam em um horizonte escuro, sem definição. Sob neblina não dá para ver, mas me lembro: por trás das árvores havia um lago com pedalinhos de cisne. Daquela paisagem não foi possível enxergar além das folhas banhadas por uma luz verde, fake e chocha⁹. 
O fim da festa é como a espuma mansa e feroz de um mar em ressaca. A câmera registra os balões perolados, o pavê, a mesa posta, mas não registra a iminência de um vômito, o gosto de bile na boca, o vazio do salão, a luz branca na cara, as flores cheirando a velório, as moscas sobre os doces, a vertigem de estar com muito sono e querer ficar acordado ou de não saber ao certo se é noite ou dia. Se vida e morte são as faces de uma mesma moeda, é possível revisitar a infância no espaço que se encontra entre os dois?










NOTAS

1. Love is in the air, música de John Paul Young; e Copacabana, de Barry Manilow.

2. FREYRE, Gilberto. Açúcar: uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

3. Estilo que se caracteriza pelo exagero sentimentalista, melodramático ou sensacionalista e que é fruto de uma cultura de massa. Designa uma categoria de objetos vulgares, baratos, bregas.
4. BARDI, L. B. Tempos de grossura: o design no impasse. São Paulo: Instituto Lina Bo Bardi e P. M. Bardi, 1994.

5. GÊNESIS 1:2-5. Português. In: Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição corrigida e revisada fiel ao texto original. Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, v. 1, n. 1.995, 1969.

6. Franz Kafka - A metamorfose.
7. Clarice Lispector - A paixão segundo G.H.

8. LISPECTOR, C. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1979.

9. Fake, em inglês, significa falso. Chocho significa murcho, fraco, sem graça.


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